O multialinhamento não é neutralidade
Os governos africanos são acusados de ficar em cima do muro. O nosso editor de Diplomacia defende que escolher parceiros de acordo com o interesse nacional é uma estratégia, e que acarreta obrigações.

Quando os governos africanos recusam tomar partido nas disputas dos outros, são muitas vezes descritos como neutros ou, pior, evasivos. A acusação interpreta mal o que se passa. Escolher parceiros de acordo com o interesse nacional não é a ausência de uma posição; é uma posição, e de longa data.
Uma tradição, não uma pausa
O Movimento dos Não Alinhados foi construído, em parte, por dirigentes africanos que se recusaram a transformar uma independência recém-conquistada em dependência de um bloco. O vocabulário mudou e os parceiros são mais numerosos, mas a lógica é familiar: manter as opções abertas e usar a concorrência entre parceiros para melhorar as condições.
As obrigações da escolha
O multialinhamento é exigente. Obriga os governos a saberem o que querem antes de negociar, a coordenarem-se com os vizinhos para que os parceiros não os possam jogar uns contra os outros, e a serem coerentes o bastante para que os princípios não pareçam conveniência.
Uma estratégia de muitos parceiros precisa de uma ideia muito clara dos próprios interesses.
Exige também honestidade em casa. Um governo que assina um empréstimo ou um acordo portuário deve poder explicar as suas condições aos seus cidadãos e ao seu parlamento. A transparência é o que transforma uma parceria numa política.
Os organismos regionais podem ajudar. Um grupo de países a negociar em conjunto tem mais influência do que qualquer membro sozinho, e normas partilhadas, das regras de contratação pública às salvaguardas ambientais, tornam mais difícil a um parceiro oferecer a uma capital condições que recusaria a outra. O multialinhamento funciona melhor quando é um hábito coletivo e não uma série de acordos privados.
O que perguntar
Os leitores devem julgar os seus governos não pela capital que visitam, mas pelo que trazem para casa: melhores condições, novos empregos, tecnologia que fica. Por esse critério, o multialinhamento pode ser uma estratégia séria. Pelo outro critério, uma reunião agradável é apenas uma fotografia.
Os artigos de opinião refletem a visão do autor, não a da Global Africa Media.